1.7.04

Superstições

As superstições futebolísticas compensam em misticismo a nossa incapacidade de intervenção nos jogos. Apropriamo-nos de hábitos que caiem do céu, inventamos um historial afortunado e cumprimos dedicadamente a recém-gerada tradição, numa sofrida contribuição para a vitória. Não há necessidade de recorrer à relevância estatística. Basta que as coisas tenham "funcionado" pelo menos uma vez para se tornarem vitais no momento em que o Figo vai marcar o livre.

Procuramos, com fervor, recriar até ao mais ínfimo pormenor todo o cenário dos momentos de glória passados, de modo a evitarmos que o tal bater de asas de uma borboleta que pode dar origem a um tornado, tenha origem na nossa sala. Usamos a mesma roupa do jogo anterior, vamos assistir aos desafios nos mesmos sítios, respiramos da mesma maneira, expulsamos das nossas imediações o amigo que em 1991 viu conosco um Sporting-Farense que acabou empatado, porque pode dar azar. Neste ambiente esterilizado nasce a fé.

Regra geral, não temos necessidade de recorrer a longas séries de rituais, uma vez que a falta de consistência deste elo entre o povo e os jogadores, trata de nos conduzir mais frequentemente do que gostaríamos à derrota. No entanto, há momentos históricos em que estes maneirismos xamânicos são postos à prova. Momentos como os que vivemos actualmente, em que a selecção ganha jogos demais para a estrutura filigrânica destas crenças caseiras. Momentos em que o equilíbrio precário do excesso de peças que compõem o puzzle da magnificência futebolística se desmorona quando alguém, inocentemente, nos lava a camisa que andámos a mastigar e a rasgar em frente à televisão desde que começámos a ganhar.

Aí a religião entra em confronto com a ciência. Dá-se o curto-circuito. Será que, limpa, a camisa, ainda é a camisa que carregou às costas a equipa? Será que sem semanas de acumulação de "sangue, suor e lágrimas" no trapo que vestimos, conseguimos vencer o Europeu? A dúvida corrói-nos. A fé esvai-se e o tremor desenfreado instala-se.

Aos onze que estão em campo ainda lhes pagam umas centenas de milhares de euros para aguentar o frágil edifício da crença na vitória. Para o décimo segundo jogador, não há salvação. Nada suporta esta transcendência de trazer por casa, para além da sua capacidade de auto-regeneração, quase instantânea, onde acessórios bafejados pelo esplendor do triunfo vão sendo paridos pela revianga e não pelo nosso voodoo em tons de verde e rubro. Nessa altura, mergulhados na solidão, torna-se evidente que não passamos de agentes esquecidos do fado, uma peça insignificante da engrenagem da sorte, onde o máximo que podemos fazer é, passivamente, evitar emperrar a máquina.

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