27.4.05

Os ideais murmurados

Na entrada de Cabanas, há uma rotunda. Na dita rotunda, foi instalada uma estátua ao golfista desconhecido, imortalizado em pleno swing. Até ao passado dia 25 de Abril, a rotunda estava inacabada: faltava uma bandeirinha com o número 18, metáfora para a concretização do louvável objectivo de transformar o Algarve num destino turístico para reformados do Norte da Europa, com pretensões a conservadores. No passado dia 25 de Abril, o moralista Macário Correia, inaugurou a rotunda, colocando a tal bandeirinha no seu devido lugar, a uma distância segura das eleições autárquicas.

Na manhã desse mesmo dia, o moralista Macário tinha estado de braço dado com o presidente do Benfica, a inaugurar a Casa do Benfica de Tavira. De braço dado com o mesmo presidente do Benfica que arranjou maneira de construir um empreendimento grotesco, a dez metros da Ria Formosa, quando tantos outros falharam. Um empreendimento onde o Rui Costa afirma ter investido no "último paraíso" e nos convida a fazer o mesmo, nos cartazes publicitários que estão pendurados à entrada de Cabanas, com vista para a recém-inaugurada rotunda e para esse monumento ao pato bravo desconhecido que é a EN 125.

No passado dia 25 de Abril, o moralista Macário vendeu o seu pedaço de terra ressequida a quem tem dinheiro para o regar, e trocou o "último paraíso" pelos corações da nação benfiquista do seu município.

O 25 de Abril não é uma data, assim como o "God bless America" da malta do West Wing não é sobre Deus, nem sobre a América e nem chega sequer a ser sobre bênçãos. O 25 de Abril é uma saudade de um delírio esquerdizante que me impele a juntar o moralista Macário (assim como todos os outros moralistas) à lista de pessoas que fuzilaria no Campo Pequeno. Mas agora é tarde demais. Agora já passaram 31 anos.

6 Comentários:

At 10:18 da manhã, Blogger Afonso Henriques disse...

Macário Correia, o das ineplicáveis fantasias sobre lamber cinzeiros e mulheres que fumam, é um subproduto, uma consequência directa, um corolário enfim, do 25 de Abril de 1974.
Assim como a blogosfera e seus adeptos.

 
At 3:12 da tarde, Blogger Rita disse...

Eu já nem precisava do campo pequeno... Bastava-me pôr o pescoço desse Macário enfiado no buraco da rotunda (ai, ai, eu que sou fã de Cabanas e até me arrepio de te ler assim).
Quanto a este senhor que por acaso fica «por cima de mim» nestes comentários... bem, esse só mesmo o Campo Pequeno, lamento

 
At 12:44 da manhã, Blogger Dinamene disse...

De bicicleta país fora, para cima e para baixo, e ao chegar «ao cima» um macinho de tabaco imediato, ao chegar «ao baixo» outro macinho... ora vejamos... Gitanes? Nah!

 
At 9:52 da tarde, Blogger lb disse...

Ai Cabanas!
Passei lá as minhas primeiras e segundas férias de família (como pai) da minha vida.
Quando vejo os bonecos destes paraísos nos jornais, sofro, como arquitecto, sempre dum insuportável sentimento de impotência, e neste caso algo pior.

 
At 11:50 da manhã, Blogger O Silva disse...

Lutz: Também eu. Continuo a ir lá passar fins de semana, e a assistir aos poucos ao fim do tal paraíso. Parece que no verão já é impossível ir lá porque os barcos, o estacionamento, etc., não são suficientes para suportar a duplicação do tamanho da vila, permitida por tipos como o Macário e executada pelos Luís Filipe Vieiras deste (muitas vezes triste) país. Mais uma história para mais tarde recordar...

 
At 1:32 da tarde, Blogger pescadordigital disse...

http://blog.digfish.org/2005/04/rotunda-benamor-arrggghhhh.html ;)

 

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