4.5.05

Formação

Os animais de estimação toleram-nos porque não conseguem sobreviver sem nós, porque viciámos a ordem natural e os trancámos em espaços onde a comida não só não está viva, como vem dentro de pacotes e muitas vezes está congelada. Não se trata de uma questão de amizade, nem sequer de estima, mas sim de ortoprotesia.

Eles não nos acompanham, não nos amam, dependem de nós por razões práticas e nós deles porque nos treinam. Dão a sua vida para que possamos aprender domesticar a transcendência, mais especificamente, a morte e os filhos. Com a sua micro-existência relativizam a dor, esquematizam o desconhecimento do outro.

Já tive um cão, pelo que, ceteris paribus, estou razoavelmente preparado para lidar com pessoas com menos de três anos de idade. No entanto, ele ainda está vivo e próximo. Apesar de tudo, tenho esperança que ele ainda venha a cumprir a missão ingrata que lhe confiámos. Tenho esperança que a sua morte não seja inútil, já que a minha família só recentemente começou a morrer e os meus amigos ainda estão todos de boa saúde.

5 Comentários:

At 1:40 da manhã, Blogger Guarda-factos disse...

Caro Silva,

Acho, minha opinião, que tomou o todo pela parte, isto é, nem todas as pessoas, que têm animais de estimação, estarão com o intuito de ensaiar pater/maternidades ou períodos de nojo.
O mero prazer pelo companheirismo, o profundo respeito pela vida ou o tacteio nos afectos, também estarão, muito porventura, a ser revigorados.
Caso contrário, entre cão e tamagotchi...

Cumprimentos

 
At 11:31 da manhã, Blogger O Silva disse...

Caro JoãoG,

Estou de acordo. Partilhar a vida com um animal de estimação não tem o propósito que eu descrevi no post, mas, entre outras "lições" a retirar dessa convivência, a preparação para a morte e para a procriação, serão as mais insubstituíveis. O "companheirismo, o profundo respeito pela vida ou o tacteio nos afectos" é digerível, é maneiro, compreensível. Estão ao nosso alcance no dia a dia. A morte e a geração de vida já não. São fenómenos que nos ultrapassam e que, muitas vezes, só em versão de bolso é que os conseguimos entender, aceitar, e aprender a viver com eles.

 
At 9:40 da tarde, Blogger Victor Lazlo disse...

Será que quem trabalha num matadouro encara a morte com sonolência. E poderá isso ser chamado de deformação profissional?

 
At 5:53 da tarde, Blogger O Silva disse...

Possivelmente, a morte, na linha de montagem, tem outro nome. Produção de bifes, ou uma coisa parecida...

 
At 2:02 da manhã, Blogger Natan disse...

Não nos amam?
isso não é bem verdade.
quem não ama também não dá importância. Mesmo que você de comida,se não der atenção e carinho
ele fica triste e pode até morrer de solidão. E mesmo tendo outrs pessos dando atenção e carinho meu cão sente a minha falta quando saio por muito tempo. E eu nem dou comida a ele, outros o fazem.

 

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